Com cartoons de Augusto Cid
«O título é o de um livro de ‘Vera Lagoa’ como assinava literariamente, a fundadora deste jornal. Foi um acto de coragem, a denúncia do vira-casaquismo. Hoje é um exemplo moral e um aviso. Uma pessoa muda de opinião, de ideologia, de religião, de clube futebol. Quando as mudanças se dão já na idade adulta, tem de haver uma explicação. Muitas vezes é torpe o motivo. Uns mudam por terem sido maltratados por aquilo em que acreditaram, outros porque esperam benesses com a exteriorização das novas crenças. Muito poucos mesmo mudam por causa de um intenso e por vezes doloroso processo interior de reflexão e crítica. As conveniências são quase sempre mais fortes. Há países em que uma mesma geração teve de se adaptar a alterações substanciais do seu sistema político e das regras de jogo sociais. Aqueles que viveram na Alemanha de Leste, hoje parte integrante da Alemanha unificada, viram chegar o nazismo nos anos vinte, o comunismo a meio dos anos quarenta e a democracia no final dos anos oitenta, com a queda do Muro de Berlim. Uma mesma geração teve ou de se adaptar, mascarando sentimentos e dissimulando opiniões, ou tornar descarada e ostensiva a profissão de fé nos novos tempos. Em Portugal mudaram muitos da Monarquia para a República, o que já foi há muitos anos, muitos outros em 25 de Abril. Diametralmente. Está nisso a diferença. Trata-se de passar de uma ideia para a sua contrária. O que é curioso é que as novas situações políticas nunca desdenharam trânsfugas e convertidos, por mais duvidosa que fosse a sua fé de cristãos-novos. E o que é curioso é que a denúncia dessas, quantas vezes apressadas, conversões, nem sempre surte efeito. As pessoas riem-se, mas acabam por compreender, perdoando. Há infelizmente uma moral adaptativa a balizar o comportamento de muitos portugueses. Em 1977 a fundadora deste jornal publicou um livro notável que o editor Paradela de Abreu chamou “uma forma de luta a favor do saneamento moral da sociedade em que vivemos”.» António Pina do Amaral, in jornalodiabo.blogs.sapo.pt
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Com cartoons de Augusto Cid
«O título é o de um livro de ‘Vera Lagoa’ como assinava literariamente, a fundadora deste jornal. Foi um acto de coragem, a denúncia do vira-casaquismo. Hoje é um exemplo moral e um aviso. Uma pessoa muda de opinião, de ideologia, de religião, de clube futebol. Quando as mudanças se dão já na idade adulta, tem de haver uma explicação. Muitas vezes é torpe o motivo. Uns mudam por terem sido maltratados por aquilo em que acreditaram, outros porque esperam benesses com a exteriorização das novas crenças. Muito poucos mesmo mudam por causa de um intenso e por vezes doloroso processo interior de reflexão e crítica. As conveniências são quase sempre mais fortes. Há países em que uma mesma geração teve de se adaptar a alterações substanciais do seu sistema político e das regras de jogo sociais. Aqueles que viveram na Alemanha de Leste, hoje parte integrante da Alemanha unificada, viram chegar o nazismo nos anos vinte, o comunismo a meio dos anos quarenta e a democracia no final dos anos oitenta, com a queda do Muro de Berlim. Uma mesma geração teve ou de se adaptar, mascarando sentimentos e dissimulando opiniões, ou tornar descarada e ostensiva a profissão de fé nos novos tempos. Em Portugal mudaram muitos da Monarquia para a República, o que já foi há muitos anos, muitos outros em 25 de Abril. Diametralmente. Está nisso a diferença. Trata-se de passar de uma ideia para a sua contrária. O que é curioso é que as novas situações políticas nunca desdenharam trânsfugas e convertidos, por mais duvidosa que fosse a sua fé de cristãos-novos. E o que é curioso é que a denúncia dessas, quantas vezes apressadas, conversões, nem sempre surte efeito. As pessoas riem-se, mas acabam por compreender, perdoando. Há infelizmente uma moral adaptativa a balizar o comportamento de muitos portugueses. Em 1977 a fundadora deste jornal publicou um livro notável que o editor Paradela de Abreu chamou “uma forma de luta a favor do saneamento moral da sociedade em que vivemos”.» António Pina do Amaral, in jornalodiabo.blogs.sapo.pt