«Na complexa história das relações entre as artes verbais e as visuais, há um momento particularmente importante, que me proponho recordar aqui, por razões que deverão tornar-se claras mais adiante. Ancorado no século XVIII, mais precisamente em 1766, esse momento consistiu na publicação de uma obra, hoje célebre, intitulada Laokoön, da autoria do crítico e dramaturgo alemão Gothold Ephraïm Lessing. Procurando definir fronteiras claras entre a pintura e a poesia – questão que, com manifesto prejuízo desta última, nunca tinha sido possível concretizar –, Lessing conseguiu definir critérios precisos para libertar a escrita lírica de uma terrível sujeição de séculos, durante os quais fora quase sempre considerada uma arte menor, quando comparada com a representação visual. De uma forma contundente, que o Romantismo posterior consagrou, e de que a nossa Modernidade é ainda devedora, Lessing defendeu a capacidade da poesia de fundir duas imagens numa só, aliando traços negativos e positivos, assim prolongando o que alguns – poucos – já tinham tentado demonstrar, como foi o caso do italiano Jacopo Mazzoni, que, à saída do Renascimento, no século XVI, ousara sustentar a superioridade da poesia sobre a pintura, baseado na ideia de que apenas a primeira se encontrava apta a dar a ver o invisível.» João Paulo Sousa
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«Na complexa história das relações entre as artes verbais e as visuais, há um momento particularmente importante, que me proponho recordar aqui, por razões que deverão tornar-se claras mais adiante. Ancorado no século XVIII, mais precisamente em 1766, esse momento consistiu na publicação de uma obra, hoje célebre, intitulada Laokoön, da autoria do crítico e dramaturgo alemão Gothold Ephraïm Lessing. Procurando definir fronteiras claras entre a pintura e a poesia – questão que, com manifesto prejuízo desta última, nunca tinha sido possível concretizar –, Lessing conseguiu definir critérios precisos para libertar a escrita lírica de uma terrível sujeição de séculos, durante os quais fora quase sempre considerada uma arte menor, quando comparada com a representação visual. De uma forma contundente, que o Romantismo posterior consagrou, e de que a nossa Modernidade é ainda devedora, Lessing defendeu a capacidade da poesia de fundir duas imagens numa só, aliando traços negativos e positivos, assim prolongando o que alguns – poucos – já tinham tentado demonstrar, como foi o caso do italiano Jacopo Mazzoni, que, à saída do Renascimento, no século XVI, ousara sustentar a superioridade da poesia sobre a pintura, baseado na ideia de que apenas a primeira se encontrava apta a dar a ver o invisível.» João Paulo Sousa