«Recintos fortificados, geralmente centrais nas várias cidades onde existem, os Kremlin fazem parte da cultura russa. O de Moscovo é referência obrigatória, e é mencionando-o que Venia, Venichta, Venedikt Erofeev, herói, anti-herói, narrador homónimo do autor desta prosa deste poema trágico se introduz, apresentando-se e apresentando-nos o espaço em que se move: Moscovo. Moscovo omissa nos panfletos propagandísticos, arrogante para os que ousam questionar, lugar de desacolhimento, de onde há que sair em busca do que ali não se encontra: a ternura (que o filho representa), o amor (que a prostituta adorada lhe assegura), a compreensão (da gente que com ele viaja, solidária nos insólitos da vida, solitária nos percursos, desalojada também, unida pelo calor que o álcool precipita). Um mesmo percurso, da estação Kursk em Moscovo até Petuchki, o fim da linha, cento e poucos quilómetros, uma carruagem, e logo ali se juntam representantes variadíssimos da URSS, viajantes dispostos a discorrer mas também a ouvir sobre o que vai moendo o ideal em que se acreditou, e a perseguir um outro, seja ele qual for, delirante ou não, por certo justo. Estranha viagem em que se regressa ao lugar de onde se partiu, de onde talvez nunca se tenha saído, caminho de lado algum para lado algum, metáfora do destino soviético. Apresentado o lugar, é pelo que transmite da sua vivência ali que Venia primeiro se apresenta: aquele que, tendo vezes sem conta calcorreado a cidade, é obrigado, pela sua comovente e hilariante honestidade a confessar o absurdo de nunca ter visto o Kremlin. Assim inicia o relato da sua vida, tão rica e culta e triste na sua lucidez alcoólica quão eternecedoramente ingénua nas expectativas.» Da Apresentação, por Olga Kmirova
€10
«Recintos fortificados, geralmente centrais nas várias cidades onde existem, os Kremlin fazem parte da cultura russa. O de Moscovo é referência obrigatória, e é mencionando-o que Venia, Venichta, Venedikt Erofeev, herói, anti-herói, narrador homónimo do autor desta prosa deste poema trágico se introduz, apresentando-se e apresentando-nos o espaço em que se move: Moscovo. Moscovo omissa nos panfletos propagandísticos, arrogante para os que ousam questionar, lugar de desacolhimento, de onde há que sair em busca do que ali não se encontra: a ternura (que o filho representa), o amor (que a prostituta adorada lhe assegura), a compreensão (da gente que com ele viaja, solidária nos insólitos da vida, solitária nos percursos, desalojada também, unida pelo calor que o álcool precipita). Um mesmo percurso, da estação Kursk em Moscovo até Petuchki, o fim da linha, cento e poucos quilómetros, uma carruagem, e logo ali se juntam representantes variadíssimos da URSS, viajantes dispostos a discorrer mas também a ouvir sobre o que vai moendo o ideal em que se acreditou, e a perseguir um outro, seja ele qual for, delirante ou não, por certo justo. Estranha viagem em que se regressa ao lugar de onde se partiu, de onde talvez nunca se tenha saído, caminho de lado algum para lado algum, metáfora do destino soviético. Apresentado o lugar, é pelo que transmite da sua vivência ali que Venia primeiro se apresenta: aquele que, tendo vezes sem conta calcorreado a cidade, é obrigado, pela sua comovente e hilariante honestidade a confessar o absurdo de nunca ter visto o Kremlin. Assim inicia o relato da sua vida, tão rica e culta e triste na sua lucidez alcoólica quão eternecedoramente ingénua nas expectativas.» Da Apresentação, por Olga Kmirova