«[...] Tudo começou em Coimbra, em 1962. A Faculdade de Letras era o habitual assombro besta acompanhando uma cidade onde poucos livros havia, pouco cinema e ruas nenhumas onde a vida pudesse acontecer. O António Calvário, um entre todos os cantores, de que em breve já quase ninguém se lembraria, como é da natureza das coisas, foi lá cantar na Queima das Fitas desse ano: trepados em árvores, amontoados atrás dos lugares sentados, macacos de atitude e imaginação, os estudantes da província uivavam, insultavam, bolsavam histéricos a mediocridade colectiva das suas existências sobre o pobre do vocalista pois lhes constava (nessa época tudo constava somente) que o homem não tinha a sexualidade deles. Nunca imaginei que uma universidade e a sua cidade fossem um lugar tão tacanhamente ignominioso. Estava, claro, a crescer e a aprender. Acho que foi daí que me ficou um certo desprezo por estudantes. Tenho voltado lá e, em relação ao que o mundo mudou, o recuo cultural e comportamental é inteiramente idêntico. [...] Havia entre nós uma única pessoa com quem pude conversar, disparatar, presumir. Vinha da Ribeira Grande e chamava-se Maria de Fátima Borges. Ao fim de um ano de massacre estudantil (que nunca mais se repetiria em Lisboa, apesar da mesma idiotia ensinante, a cidade era um pouco diferente por haver ao menos algumas ruas à noite), a Fátima regressaria a S. Miguel, necessidades familiares levavam-na a um emprego inicialmente indesejado; e eu iria para onde agora estou. Entretanto, tudo em Portugal se deteriorou, sobretudo o verão. Ou pelo menos assim pensava, até que a Fátima e os Açores surgiram como hipótese de fugir à grunhificação do nosso litoral e caminhar para zonas líquidas de outra intensidade. Descobri nos Açores o Portugal que julgava perdido e nunca mais abandonei essa pacificação de viver. [...]»
€12
«[...] Tudo começou em Coimbra, em 1962. A Faculdade de Letras era o habitual assombro besta acompanhando uma cidade onde poucos livros havia, pouco cinema e ruas nenhumas onde a vida pudesse acontecer. O António Calvário, um entre todos os cantores, de que em breve já quase ninguém se lembraria, como é da natureza das coisas, foi lá cantar na Queima das Fitas desse ano: trepados em árvores, amontoados atrás dos lugares sentados, macacos de atitude e imaginação, os estudantes da província uivavam, insultavam, bolsavam histéricos a mediocridade colectiva das suas existências sobre o pobre do vocalista pois lhes constava (nessa época tudo constava somente) que o homem não tinha a sexualidade deles. Nunca imaginei que uma universidade e a sua cidade fossem um lugar tão tacanhamente ignominioso. Estava, claro, a crescer e a aprender. Acho que foi daí que me ficou um certo desprezo por estudantes. Tenho voltado lá e, em relação ao que o mundo mudou, o recuo cultural e comportamental é inteiramente idêntico. [...] Havia entre nós uma única pessoa com quem pude conversar, disparatar, presumir. Vinha da Ribeira Grande e chamava-se Maria de Fátima Borges. Ao fim de um ano de massacre estudantil (que nunca mais se repetiria em Lisboa, apesar da mesma idiotia ensinante, a cidade era um pouco diferente por haver ao menos algumas ruas à noite), a Fátima regressaria a S. Miguel, necessidades familiares levavam-na a um emprego inicialmente indesejado; e eu iria para onde agora estou. Entretanto, tudo em Portugal se deteriorou, sobretudo o verão. Ou pelo menos assim pensava, até que a Fátima e os Açores surgiram como hipótese de fugir à grunhificação do nosso litoral e caminhar para zonas líquidas de outra intensidade. Descobri nos Açores o Portugal que julgava perdido e nunca mais abandonei essa pacificação de viver. [...]»