«(...) A Economia dos Descobrimentos Henriquinos, encomenda para as publicações do 5º Centenário da morte do Infante D. Henrique que Caeiro da Matta tivera de recusar, por entender que “foi orientado num espírito bem diferente do que presidiu às comemorações henriquinas.” Ao autor foi mesmo transmitido por um historiador (desconfie-se que Armando Cortesão, recém-convertido ao Estado Novo que combatera) que se tratava de um trabalho “demasiado económico, quase marxista.” afirmando que o livro tinha o defeito de tratar apenas de economia! Evidentemente, e inverdade, não menos. As razões são outras, e dentro da sua maneira de pensar e de agir Salazar mostrava-se coerente. Ou outros por ele, que não há que esquecer que o Infante D. Henrique figurava um símbolo fundamental para o beatério nacional que se revia na ditadura. Pôr em causa a quase santidade do virginal combatente chocava: “Tanto desaforo torna-se quando menos, facécia.” Não trata A Economia dos Descobrimentos Henriquinos apenas da economia, como foi arguido de forma ignara. A dificuldade provinha precisamente do modo como economia, sociedade e cultura se apresentavam articuladas, harmónicas ou conflituais. E isto não servia aos que, nas vésperas da guerra colonial, precisavam encontrar no Infante um puríssimo visionário, um virginal salvador de almas dos escravos (que vendia para os converter à fé católica – segundo indelével descrição de Zurara...) Verdade seja que Magalhães Godinho diminuía o Infante, pois a angélica figura era forçada a abandonar as abruptas falésias de Sagres para se mover em concretas e duras condições económicas, sociais e políticas, onde avultava e que não dominava: há outras personagens, há outras forças em presença, há interesses diversificados, concorrenciais.» in http://dichp.bnportugal.pt/
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«(...) A Economia dos Descobrimentos Henriquinos, encomenda para as publicações do 5º Centenário da morte do Infante D. Henrique que Caeiro da Matta tivera de recusar, por entender que “foi orientado num espírito bem diferente do que presidiu às comemorações henriquinas.” Ao autor foi mesmo transmitido por um historiador (desconfie-se que Armando Cortesão, recém-convertido ao Estado Novo que combatera) que se tratava de um trabalho “demasiado económico, quase marxista.” afirmando que o livro tinha o defeito de tratar apenas de economia! Evidentemente, e inverdade, não menos. As razões são outras, e dentro da sua maneira de pensar e de agir Salazar mostrava-se coerente. Ou outros por ele, que não há que esquecer que o Infante D. Henrique figurava um símbolo fundamental para o beatério nacional que se revia na ditadura. Pôr em causa a quase santidade do virginal combatente chocava: “Tanto desaforo torna-se quando menos, facécia.” Não trata A Economia dos Descobrimentos Henriquinos apenas da economia, como foi arguido de forma ignara. A dificuldade provinha precisamente do modo como economia, sociedade e cultura se apresentavam articuladas, harmónicas ou conflituais. E isto não servia aos que, nas vésperas da guerra colonial, precisavam encontrar no Infante um puríssimo visionário, um virginal salvador de almas dos escravos (que vendia para os converter à fé católica – segundo indelével descrição de Zurara...) Verdade seja que Magalhães Godinho diminuía o Infante, pois a angélica figura era forçada a abandonar as abruptas falésias de Sagres para se mover em concretas e duras condições económicas, sociais e políticas, onde avultava e que não dominava: há outras personagens, há outras forças em presença, há interesses diversificados, concorrenciais.» in http://dichp.bnportugal.pt/