Armand -Jean du Plessis, cardeal-duque de Richelieu, não figura na história do pensamento político. Protótipo do homem de acção, universalmente conhecido, por admiradores e por inimigos, como dotado de inteligência, energia, sagacidade e disciplina muito acima do comum, crê -se em geral que o livro que deixou inédito e a que deu o nome de Testamento Político não é senão elogio em boca própria, logo, vitupério. O ter o cardeal ensaiado também obra teológica e experimentado a dramaturgia, sem deixar em qualquer destes campos algo verdadeiramente digno de registo, aumenta ainda mais a suspeita de que a sua produção literária, incluindo este livro, ao qual não se sabe se ele próprio, além de o supervisionar, deu mais alguma coisa, é destituída de originalidade, senão de interesse. Se a isto se juntar a desmedida projecção da sua acção política, que em apenas 18 anos o alçou a legenda do século, percebe -se a razão por que a maior parte das leituras do Testamento o vêem como reverberação narcísica do homem ou simples moldura da verdadeira «obra», aquela pela qual a história o recorda e de que os livros são apenas uma pálida evocação.
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Armand -Jean du Plessis, cardeal-duque de Richelieu, não figura na história do pensamento político. Protótipo do homem de acção, universalmente conhecido, por admiradores e por inimigos, como dotado de inteligência, energia, sagacidade e disciplina muito acima do comum, crê -se em geral que o livro que deixou inédito e a que deu o nome de Testamento Político não é senão elogio em boca própria, logo, vitupério. O ter o cardeal ensaiado também obra teológica e experimentado a dramaturgia, sem deixar em qualquer destes campos algo verdadeiramente digno de registo, aumenta ainda mais a suspeita de que a sua produção literária, incluindo este livro, ao qual não se sabe se ele próprio, além de o supervisionar, deu mais alguma coisa, é destituída de originalidade, senão de interesse. Se a isto se juntar a desmedida projecção da sua acção política, que em apenas 18 anos o alçou a legenda do século, percebe -se a razão por que a maior parte das leituras do Testamento o vêem como reverberação narcísica do homem ou simples moldura da verdadeira «obra», aquela pela qual a história o recorda e de que os livros são apenas uma pálida evocação.