«Os Cadernos de Pickwick são, então, um romance heterogéneo a ponto de não ser considerado um romance, povoado de personagens que, apesar de tudo, não são exactamente personagens. À primeira vista, trata‑se de uma escolha pouco feliz para inaugurar uma colecção de literatura de humor. No entanto, Os Cadernos de Pickwick foram e são um clássico instantâneo, uma referência na comédia de situação, de linguagem e de personagem, cuja influência se percebe em obras de todos os tipos – não apenas nas estritamente humorísticas. É um livro inocente sobre a inocência, em que tanto o protagonista como o autor vão, a pouco e pouco, deixando de ser inocentes. O eterno Sr. Pickwick, que começa por ser um pateta pomposo e ridículo, é, no final do livro, um homem bondoso e puro – e, no entanto, temos a sensação de que não foi ele quem mudou. As personagens mudam pouco ou nada, ao longo do romance (o Sr. Pickwick continua a ser um ingénuo bem‑intencionado, o Sr. Snodgrass um péssimo poeta, o Sr. Winkle um desportista desastrado, o Sr. Tupman um pinga‑amor celibatário), mas o autor e o leitor mudam. O sarcasmo de Dickens, e o nosso, transforma‑se em admiração, embora o Sr. Pickwick se mantenha igual – como os deuses. Como diz Chesterton, ‘Dickens não escreveu exactamente literatura; escreveu mitologia’.» Ricardo Araújo Pereira
Ilustração: R. Seymour
«Os Cadernos de Pickwick são, então, um romance heterogéneo a ponto de não ser considerado um romance, povoado de personagens que, apesar de tudo, não são exactamente personagens. À primeira vista, trata‑se de uma escolha pouco feliz para inaugurar uma colecção de literatura de humor. No entanto, Os Cadernos de Pickwick foram e são um clássico instantâneo, uma referência na comédia de situação, de linguagem e de personagem, cuja influência se percebe em obras de todos os tipos – não apenas nas estritamente humorísticas. É um livro inocente sobre a inocência, em que tanto o protagonista como o autor vão, a pouco e pouco, deixando de ser inocentes. O eterno Sr. Pickwick, que começa por ser um pateta pomposo e ridículo, é, no final do livro, um homem bondoso e puro – e, no entanto, temos a sensação de que não foi ele quem mudou. As personagens mudam pouco ou nada, ao longo do romance (o Sr. Pickwick continua a ser um ingénuo bem‑intencionado, o Sr. Snodgrass um péssimo poeta, o Sr. Winkle um desportista desastrado, o Sr. Tupman um pinga‑amor celibatário), mas o autor e o leitor mudam. O sarcasmo de Dickens, e o nosso, transforma‑se em admiração, embora o Sr. Pickwick se mantenha igual – como os deuses. Como diz Chesterton, ‘Dickens não escreveu exactamente literatura; escreveu mitologia’.» Ricardo Araújo Pereira
Ilustração: R. Seymour